
“Um dia ainda hei de escrever um pequeno tratado de brinquedos para meninos quietos”, prometeu certa vez João Guimarães Rosa, um dos escritores mais estudados da literatura brasileira. A tarefa ficou inconclusa, mas serviu de inspiração para a excelente exposição Meninos Quietos, no SESC Pinheiros, em São Paulo.
Nascido em 1908, o mineiro João Guimarães Rosa costuma ser lembrado pela complexidade de sua linguagem; pelas metáforas, paradoxos e ambigüidades de seus textos, pelo aspecto universal de seu regionalismo. Autor de obras-primas como Sagarana (1946), Grande sertão: Veredas (1956) e Primeiras estórias (1962), sua obra já foi analisada sob diversos prismas: filosófico, psicanalítico, metalingüístico, histórico, geográfico, sociológico etc. Poucas vezes, entretanto, foi dada atenção ao menino do interior que morou no coração do escritor, anterior ao médico ou ao diplomata Guimarães Rosa.
Joãozito, como os familiares o chamavam, gostava de colecionar borboletas, tanajuras, besouros. Passava horas fiscalizando o vaivém das formigas e a arquitetura dos cupinzeiros. Deliciava-se com a sinfonia teimosa das cigarras. Seu interesse pela história natural o levava também a alterar o curso dos fiozinhos d'água que vinham do trabalho árduo das lavadeiras. Cada fiozinho era um rio, Danúbio ou São Francisco, e passava por cidades imaginárias. A propósito de seus primeiros anos, diria mais tarde o escritor: “Não gosto de falar da infância. É um tempo de coisas boas, mas sempre com pessoas grandes incomodando a gente, estragando os prazeres.[...] Gostava de estudar sozinho e de brincar de geografia: de prender formiguinhas, em ilhas que eram pedras postas num tanque raso e, unidas por pauzinhos, pontes para formiguinha passar, de armar alçapões para apanhar sanhaços e depois tornar a soltá-los: uma maravilha. Puxar sabugos de espigas de milho, feito boizinhos de carro. Pena era não dispor de tinta para desensabugar um boi verde. [...] Um dia ainda hei de escrever um pequeno tratado de brinquedos para meninos quietos”.
A promessa não foi cumprida, mas serviu de inspiração para a exposição Meninos Quietos, que aconteceu gratuitamente em junho de 2006 no SESC Pinheiros – SP. Nela foram reunidos os brinquedos das crianças do sertão de Minas Gerais e presentes na literatura de João Guimarães Rosa. Trazidos do local onde o escritor nasceu e se inspirou para escrever sua obra, esses brinquedos revelam uma cultura primitivamente universal, presente não somente no dia-a-dia das crianças que vivem nesta região e interagem com a natureza ainda viva do cerrado, mas também no imaginário infantil como um todo.
A concepção cenográfica, assinada pela artista plástica Anne Vidal, traduz em sete núcleos – Brincar de pensar, Brincar de sensações, Brincar de criar, Brincar de olhar, Brincar de geografia, Brincar de colecionar e Brincar de segredos – o universo infantil com o intuito de sensibilizar as pessoas para a importância das criações do cotidiano e despertar o gosto pela preservação de suas memórias mais simples.
Os visitantes penetram um ambiente mágico onde seus sentidos e sentimentos são estimulados por meio de cantigas e histórias populares; bonecas e bichos feitos de milho, cabaça e pano; fotografias; pinturas; esteiras de palha; banquinhos de madeira; sementes, gravetos e pedrinhas. Arte e brinquedo se confundem na exposição.
O trabalho é fruto de uma longa pesquisa, desenvolvida por uma menina que tem os olhos verdes de Diadorim. Um dia essa menina encontrou-se perdida entre livros e ficou fascinada pelo mundo de Guimarães Rosa. Ela é Selma Maria, arte-educadora e pesquisadora que há dez anos estuda os brinquedos da cultura brasileira.
Desde o dia em que esse encontro ocorreu, ela passou a perseguir um objetivo: resgatar entre as crianças do sertão “receitas de vida quieta”. A seguir, em entrevista concedida ao Portal Literal, ela fala do trabalho que desenvolveu no interior de Minas e de sua relação com a obra de Guimarães Rosa.
Clique no link abaixo para ler a entrevista completa concedida ao Portal Literal a Ana Lúcia Tsusui.
Nascido em 1908, o mineiro João Guimarães Rosa costuma ser lembrado pela complexidade de sua linguagem; pelas metáforas, paradoxos e ambigüidades de seus textos, pelo aspecto universal de seu regionalismo. Autor de obras-primas como Sagarana (1946), Grande sertão: Veredas (1956) e Primeiras estórias (1962), sua obra já foi analisada sob diversos prismas: filosófico, psicanalítico, metalingüístico, histórico, geográfico, sociológico etc. Poucas vezes, entretanto, foi dada atenção ao menino do interior que morou no coração do escritor, anterior ao médico ou ao diplomata Guimarães Rosa.
Joãozito, como os familiares o chamavam, gostava de colecionar borboletas, tanajuras, besouros. Passava horas fiscalizando o vaivém das formigas e a arquitetura dos cupinzeiros. Deliciava-se com a sinfonia teimosa das cigarras. Seu interesse pela história natural o levava também a alterar o curso dos fiozinhos d'água que vinham do trabalho árduo das lavadeiras. Cada fiozinho era um rio, Danúbio ou São Francisco, e passava por cidades imaginárias. A propósito de seus primeiros anos, diria mais tarde o escritor: “Não gosto de falar da infância. É um tempo de coisas boas, mas sempre com pessoas grandes incomodando a gente, estragando os prazeres.[...] Gostava de estudar sozinho e de brincar de geografia: de prender formiguinhas, em ilhas que eram pedras postas num tanque raso e, unidas por pauzinhos, pontes para formiguinha passar, de armar alçapões para apanhar sanhaços e depois tornar a soltá-los: uma maravilha. Puxar sabugos de espigas de milho, feito boizinhos de carro. Pena era não dispor de tinta para desensabugar um boi verde. [...] Um dia ainda hei de escrever um pequeno tratado de brinquedos para meninos quietos”.
A promessa não foi cumprida, mas serviu de inspiração para a exposição Meninos Quietos, que aconteceu gratuitamente em junho de 2006 no SESC Pinheiros – SP. Nela foram reunidos os brinquedos das crianças do sertão de Minas Gerais e presentes na literatura de João Guimarães Rosa. Trazidos do local onde o escritor nasceu e se inspirou para escrever sua obra, esses brinquedos revelam uma cultura primitivamente universal, presente não somente no dia-a-dia das crianças que vivem nesta região e interagem com a natureza ainda viva do cerrado, mas também no imaginário infantil como um todo.
A concepção cenográfica, assinada pela artista plástica Anne Vidal, traduz em sete núcleos – Brincar de pensar, Brincar de sensações, Brincar de criar, Brincar de olhar, Brincar de geografia, Brincar de colecionar e Brincar de segredos – o universo infantil com o intuito de sensibilizar as pessoas para a importância das criações do cotidiano e despertar o gosto pela preservação de suas memórias mais simples.
Os visitantes penetram um ambiente mágico onde seus sentidos e sentimentos são estimulados por meio de cantigas e histórias populares; bonecas e bichos feitos de milho, cabaça e pano; fotografias; pinturas; esteiras de palha; banquinhos de madeira; sementes, gravetos e pedrinhas. Arte e brinquedo se confundem na exposição.
O trabalho é fruto de uma longa pesquisa, desenvolvida por uma menina que tem os olhos verdes de Diadorim. Um dia essa menina encontrou-se perdida entre livros e ficou fascinada pelo mundo de Guimarães Rosa. Ela é Selma Maria, arte-educadora e pesquisadora que há dez anos estuda os brinquedos da cultura brasileira.
Desde o dia em que esse encontro ocorreu, ela passou a perseguir um objetivo: resgatar entre as crianças do sertão “receitas de vida quieta”. A seguir, em entrevista concedida ao Portal Literal, ela fala do trabalho que desenvolveu no interior de Minas e de sua relação com a obra de Guimarães Rosa.
Clique no link abaixo para ler a entrevista completa concedida ao Portal Literal a Ana Lúcia Tsusui.
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